Vou me dedicar aqui em socializar as coisas, causos e contos do Conselho Tutelar o lugar das grandes, duras e também lindas experiências.

Nesse lugar em que a contradição se expressa intensamente, inclusive a contradição do ser coletiva e ser singular! Nesse lugar de diferentes cores, dores e alegrias, no espaço que a utopia e o esperançar tomam conta de mim cotidianamente.

Lugar de diversos cansaços: cansaço físico, emocional e espiritual, muitas vezes. Mas o lugar da rica aprendizagem, incluindo a aprendizagem do descansar! Descansar e repousar para o amanhecer... e o amanhecer vem colorido de novo.

E entre um e outro texto certamente estarão também presentes outras experiências vividas, nessa minha vida militante e cheia de boas coisas...



Abraço fraterno!

Alessandra Freitas
















terça-feira, junho 29, 2010

Experienciando

Amados meus.

Quantas coisas já vivenciadas durante oito meses de luta no Conselho, algumas vezes me habita o sentimento da solidão... duro sentimento!

Em muitas outras o sentimento da multidão toda dentro de mim...

... multidão daqueles que não têm como falar, talvez por não saber como, não saber o que, não querer assim fazer, mas quase sempre por não terem a possibilidade de imaginar que têm voz...

Vêem-se mudos.

Acredito que em meio a tanto amargo se o processo da fala fosse iniciado, de repente, poderíamos todos experienciar o doce...

Tenho vivenciado a rua... que gostoso e que difícil.

A rua que possibilita tantas trocas e aprendizagens, tantos cheiros, tanta diversidade e beleza.

Também traz em seu asfalto tanta frieza e tristeza às relações humanas.

Divirto-me com o futebol dos garotos e me orgulho quando junto aos populares a ocupamos garantindo na Rua, boas risadas, bons ensinamentos, bons cafés, felizes abraços e principalmente boas batalhas nessa nossa intensa luta pelo justo.

Já chorei de alegria...

Quando dei pela primeira vez um Estatuto da Criança e do Adolescente para uma pequena que eu levava para a mãe.

Quando consegui tocar uma criancinha linda que a chamava Flor de meu jardim...(neuropata em situação de risco) e pude entende-la, compreender a alma daquela pequena, e cantei para ela.

Quando ensinei um querido adolescente que o chamo de – menino pássaro a escrever seu nome.

Quando levei outra Flor ao encontro de seu pai e precisamos pernoitar na noite fria de Porto Alegre e ela dormiu em meus braços, abraçadinha comigo.

Quando reafirmei junto à galerinha do Ipanema Ville e do Tancredo Neves, que criança é sujeito de suas relações e MORADIA dever de ser garantido a elas... E ao final do dia ganhei diversos abraços cheios de força, beleza e confiança em meio a RUA.

Já chorei de tristeza...

Quando abriguei dois irmãozinhos.

Quando vou as visitas e

Miséria, miséria e miséria. – Ai meu Deus!

Ri muito com um grande camaradinha, que após sua casa de papelão, com um escrito na porta: “NÃO PERTURBE”, ter sido destruída em frente a Câmara Municipal, desafiou a todos e como bom arquiteto que é, construiu sua nova casa em cima de uma árvore na Praça Santa Terezinha.

Hoje em dia consegui ser “amiga” dele e a nova casa é móvel.

Poderia relatar muitas outras experiências em ricos detalhes, mas escolhi os detalhes quais hoje minha memória histórica registrou:

Entrei na Casa de grades Amarelas, minha bolsa foi revistada, meu celular pessoal desligado e entreguei à guarda. O celular do Plantão, tudo bem, podia ficar ligado, mas na guarita, a guarda quem iria atendê-lo se tocasse. Fui totalmente revistada, só não precisei tirar minha roupa. Ah! Graças à tecnologia...

Abriu-se uma grade e eu dei um passo então ela fechou-se e abriu-se a outra, nossa! Eu pensei que já estava perto do lugar dos Meninos em Assembléia, mas ainda tinha mais grades...

... Enfim cheguei, fui apresentada a todos, mas não falei, talvez por não saber como ... ou por não imaginar ter voz.

Parecia que eu estava lá para ajudar a manter a ordem!

Os novos Meninos da casa ganharam uma arvorezinha pequena para que lá presos, opss!!!!! Esqueçam isso, lá em medida sócio-educativa, pudessem cuidar delas como se estivessem cuidando de suas famílias... E as mães ganharam medalhas;

Então apareceu um cara para motivá-los. Show a palestra!! Falava ele, muito bem trajado e de barba bem feita, de: fundo do poço quando se faz uso de droga, etc., tudo novidade para os Meninos. Só não era novidade quando o cara disse entusiasmado que ser feliz dependia deles, bem assim: “A felicidade está em nós, não importa o lugar que você está, todo mundo tem pernas aqui, não é? (se não tivéssemos todos nós pernas, não teríamos subido as escadas que levava-nos à Assembléia) ... tem alguém aqui que não tem um dos membros do corpo? Depende de você você ser feliz...”

Tentei com os meus olhos dizer para os Meninos: Oi! Foi só o que pude falar.

E então começou meu ritual de saída: a escada e depois uma grade, outra grade, umas assinaturas e ganhei a Rua novamente, fechando a pesada porta amarela.

Fiquei do lado de fora muito tempo esperando o motorista me apanhar... vi os pássaros no céu e pouco a pouco pais, mães, namoradas, filhinhos, irmãos cumprindo o ritual da saída se juntavam ali, bem perto de mim, e lá em cima as mãos dos Meninos acenavam.

E me deu uma vontade imensa de acenar também para aquelas mãos de rostos escondidos...

Cada um dali de baixo ia identificando as mãos dos seus, e assim inúmeras trocas de:

- Eu te amo pai!

- Eu te amo filho! Passaram a ser a melodia do fim de tarde e o inicio do descansar do SOL, tão amarelo.

Fiquei ali, muito tempo, os de baixo foram saindo em choros, risos e esperanças, ficando apenas uma mãezinha que eu percebi no seu QUERER: pegar seu filho no colo e achega-lo aos seus seios para alimentá-lo. Até que se deu realmente a hora dela ir embora e assim se distanciava só restando aquela mão lá em cima, acenando fortemente até não avista-la mais. Então vi a mão do Menino descansar na parede do lado de fora e devagarzinho se recolher para a Medida Sócio – Educativa.

Paz e bem meus caros!

Meu registro um pouco cansado, mas certo de que essa Noite de Sono e Sonhos trará o descanso para amanhã continuar. Dia 05 de setembro de 2009.

Alessandra

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